É imprescindível que não tenha
nenhum pedigree.
Preferência para focinhos pretos e
pelagem de cor indefinida.
Pode ser magro, que de tanto, tenha
o contorno do esqueleto exposto sob a pele.
Que seja capaz de encarar
todas as pessoas com aquela inocente confiança de cão
abandonado...
Que nunca distingue quem vai lhe dar
um osso ou uma porrada...
E mesmo assim, continua sendo capaz
de olhar amorosamente...
Tanto para os que o alimentam quanto para os que o
escorraçam.
É preciso não ser muito preocupado com auto-estima.
Vira-latas que se prezam costumam
não ter nenhuma...
Porque são poços profundos de desinteressado amor.
Há
que ter um olhar terno quase suplicante.
Ser capaz de olhar de soslaio e
inclinar a cabeça choramingando...
Toda vez que não entender alguma
coisa ou ficar desapontado por um pito que ele nem sabe se mereceu.
Deve
ser ruidoso e estridente quando eu estacionar o carro na
garagem...
Em manifestação inconteste de
satisfação pela minha chegada e pela minha presença.
Há que saber
brincar, esconder chinelos, arrastar tapetes e correr desvairado quando livre na
campina ou na praia.
Por saber-me feliz e redobrar as
peraltices, pelo simples fato de notar que eu o observo.
Há que ter senso
comunitário e assim, estender a sua lealdade aos demais membros da
casa.
E àqueles que ele sabe que me são
caros.
Até hoje eu criei gatos - alguns de raça.
Gatos são altivos,
oportunistas,auto-suficientes, apesar de sumamente belos e
graciosos.
Tentei (em vão) aprender com eles a
lição máxima da auto-estima...gatos são exímios na arte de se vender
caro.
Agora eu procuro um vira-latas - talvez nem tenha que procurar -
não só como amigo, mas como instrutor.
Quero assumir as virtudes que nele
sobejam como a transparência, a ressonância, a
espontaneidade.
E, acima de tudo, a capacidade de
amar incondicionalmente, mesmo quando escorraçado!